A médica chegou com o seu estetoscópio
aproximou do peito do homem, e disse :
- Ele morre ainda hoje, vou avisando ao necrotério.
Minha mãe quase morreu junto
afinal, o homem era meu pai
Eu deixei a tristeza menor
já sabia o que iria acontecer
E não dependia de um relógio
e muito menos de um estetoscópio
a morte para mim era outra coisa
E meu sofrimento não dependia do tempo
Então, pus-me a pensar, sobre a doutora
Esta mesmo, que nunca fez doutorado nenhum
Pensei o quão magnífico era o seu saber
capaz de marcar a hora da morte do outro
O que será que ela ouviu ?
Será que tem uma lógica entre os tempos do batimentos
ou será que o coração sussurrou algo em seu ouvido ?
Será que existe um convênio entre a morte e os médicos ?
Eu saberia reconhecer algo extraordinário
e ficaria fascinado
mesmo na morte do meu pai
Mas somente se
Meu pai não tivesse morrido uns dez dias depois.
Agora,
A minha intuição
que é melhor que o estetoscópio
Diz que minha mãe perdeu uns dez anos ali
Naquela brincadeira de Deus
De médicos - Deuses feitos de merda.
-------------------------------------------------------------------------------
Bem, o pior é pensar que é tudo real. Nada aqui foi inventado e aconteceu mesmo.
Os médicos, aqueles que mais deveriam saber das pessoas - e da saúde- Só entendem mesmo de doenças. É melhor se manter sempre distante, pra não pegar essa arrogância contagiosa.

3 comentários:
Sabe o que eu acho? Que isso não é coisa de médico. É coisa de filho da puta. E para qualquer profissão que lide com a fragilidade das pessoas é preciso humanidade e um pouquinho só de empatia.
Ser um bom médico não é apenas ser preciso. Muitas vezes optei por médicos não tão brilhantes mas que simplesmente conversavam, que viam uma pessoa ali na frente deles.
beijos
Tu escreveu lindamente, mais uma vez. E nas tuas palavras, a tristeza de uma situação, a indignação e outros tantos sentimentos transbordam. Sensibilidade é para poetas, apesar de haver tanta poesia na vida e na medicina. Os médicos podem até entender de como a pessoas morrem, mas não entendem de como elas vivem e do que significa ter de deixar essa vida e as pessoas dessa vida. O contexto é descontextualizado para eles, que não pensam se estão tratando o pai de alguém, filho de alguém, marido, irmão, amigo de alguém. Por um lado e até por ter convivido bastante tempo com um médico, sei que eles procuram evitar saber de todo esse entorno para não sofrerem. Mas um pouco de tato e respeito não prejudica nenhum profissional, né?
"Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás", já dizia outro médico revolucionário...
Beijo carinhoso!
Me emocionou, belo texto.
Postar um comentário