sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Será que existe um convênio entre a morte e os médicos ?


Fazendo cara de quem tudo sabe
A médica chegou com o seu estetoscópio
aproximou do peito do homem, e disse :

- Ele morre ainda hoje, vou avisando ao necrotério.

Minha mãe quase morreu junto
afinal, o homem era meu pai

Eu deixei a tristeza menor
já sabia o que iria acontecer
E não dependia de um relógio
e muito menos de um estetoscópio

a morte para mim era outra coisa
E meu sofrimento não dependia do tempo

Então, pus-me a pensar, sobre a doutora
Esta mesmo, que nunca fez doutorado nenhum

Pensei o quão magnífico era o seu saber
capaz de marcar a hora da morte do outro

O que será que ela ouviu ?

Será que tem uma lógica entre os tempos do batimentos
ou será que o coração sussurrou algo em seu ouvido ?

Será que existe um convênio entre a morte e os médicos ?

Eu saberia reconhecer algo extraordinário
e ficaria fascinado
mesmo na morte do meu pai

Mas somente se

Meu pai não tivesse morrido uns dez dias depois.

Agora,
A minha intuição
que é melhor que o estetoscópio

Diz que minha mãe perdeu uns dez anos ali

Naquela brincadeira de Deus

De médicos - Deuses feitos de merda.

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Bem, o pior é pensar que é tudo real. Nada aqui foi inventado e aconteceu mesmo.

Os médicos, aqueles que mais deveriam saber das pessoas - e da saúde- Só entendem mesmo de doenças. É melhor se manter sempre distante, pra não pegar essa arrogância contagiosa.

3 comentários:

Dolly disse...

Sabe o que eu acho? Que isso não é coisa de médico. É coisa de filho da puta. E para qualquer profissão que lide com a fragilidade das pessoas é preciso humanidade e um pouquinho só de empatia.
Ser um bom médico não é apenas ser preciso. Muitas vezes optei por médicos não tão brilhantes mas que simplesmente conversavam, que viam uma pessoa ali na frente deles.

beijos

Bianca De Vit disse...

Tu escreveu lindamente, mais uma vez. E nas tuas palavras, a tristeza de uma situação, a indignação e outros tantos sentimentos transbordam. Sensibilidade é para poetas, apesar de haver tanta poesia na vida e na medicina. Os médicos podem até entender de como a pessoas morrem, mas não entendem de como elas vivem e do que significa ter de deixar essa vida e as pessoas dessa vida. O contexto é descontextualizado para eles, que não pensam se estão tratando o pai de alguém, filho de alguém, marido, irmão, amigo de alguém. Por um lado e até por ter convivido bastante tempo com um médico, sei que eles procuram evitar saber de todo esse entorno para não sofrerem. Mas um pouco de tato e respeito não prejudica nenhum profissional, né?
"Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás", já dizia outro médico revolucionário...

Beijo carinhoso!

Mirdad disse...

Me emocionou, belo texto.